domingo, 4 de novembro de 2007

Prefácio

Primeiro, um estrondo, depois, a dor. Esperaria por fim a inconsciência, que seria bem-vinda, o último instante da sua vida.
A sua mente divagava por terrenos que lhe eram familiares, sentindo-se flutuar num mar etéreo, de recordações. Um momento de clareza. O que tinha acontecido? Um tiro, sabia-o com a mesma certeza que sabia que estava a morrer.

Conseguiu focar vagamente um episódio, de há muito ou pouco tempo, como se estivesse a ver televisão. Homens de cara tapada a entrar no banco. Os gritos e os tiros de aviso. Esse som era inesquecível, mesmo naquele mar. Tiros de aviso. Mas não este.

Esforçou-se por voltar a ficar consciente e sentiu de imediato a dor profunda. Não havia sinais do tal mar, mas bastaria um momento de fraquejo para ele voltar a invadi-la. Apenas a sua vontade de viver poderia atrasar o mar. Mas a vontade não seria o suficiente. Apercebeu-se pela primeira vez da poça de sangue que manchava a erva por debaixo dela. Ela tinha caído e sentia os braços em posições estranhas. Ela sabia que a bala não lhe tinha perfurado o coração. Oh, ela já não estaria viva se assim fosse. Mas sabia que iria morrer.

Subitamente algo terrível chicoteou-lhe a mente, fazendo-a esquecer por segundos a dor, apenas para voltar ainda mais forte (seria possível?). Com um grande esforço virou-se no chão e encarou de frente o seu assassino, para ter a certeza, com a esperança (tinha alguma?) de estar enganada. A arma que ele trazia na mão tirou-lhe toda a esperança. Só lhe restava morrer. Tentou saber o porquê, mas descobriu que isso já não lhe interessava (nada interessava?). A morte chegaria em poucos segundos. No seu delírio decidiu contar os segundos que lhe faltavam para perder a consciência.

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Tanta coisa que deixou por fazer, tantos lugares para ver e que queria visitar. O seu sonho de infância era ir a Grécia, visitar o Pártenon, os lugares que albergavam a velha sabedoria do mundo antigo. Impossível.

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De repente apercebeu-se que queria fazer mais alguma coisa. Desde pequena que gostava de aproveitar todos os milésimos de segundo que tinha à sua disposição, saboreando o tempo como se fosse parte dele. Pensou no que poderia fazer,

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talvez chamar por ajuda seria o mais normal (isto é normal?) nestes casos. Isso era impossível: ali estava sozinha e sabia que não tinha forças para utilizar as cordas vocais. Talvez descobrir o porquê (interessaria?). Decidiu então

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no que iria gastar o tempo de vida (cada milésimo, ou menos) que lhe restava. Encarou de frente o seu assassino e arrastou-se esforçadamente pela erva. Notou que já quase não sentia a dor latejante à volta do seu coração, sentia

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apenas um ardor, outro sinal de que estava a perder a consciência. Os seus olhos procuraram encarar os do seu assassino. Estes encontravam-se cerrados, mas ela não se surpreendeu com o suor e as lágrimas que lhe percorriam o rosto. Os seus lábios moviam-se não saindo qualquer som que fosse perceptível, nem fariam sentido.

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Sentia-se cada vez mais fria, um contraste ao calor que sentia na ferida provocada pela bala. Formava-se um rastro de sangue atrás dela. Todo o seu corpo, à excepção do coração, diziam-lhe para descansar, que não valia a pena, para aceitar a segurança da inconsciência, o mar. Mas o seu

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coração ordenava os músculos das mãos e dos braços a empurrarem-na para a frente. Não morreria enquanto não cumprisse o que tinha estipulado. Seria mesmo a última coisa que iria fazer com vida.

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Memórias passavam-lhe lentamente, enquanto ia deixando o seu sangue, a sua vida, para trás. O avô a dar-lhe o seu primeiro livro, a

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mãe a beijar o pai, ela a tratar do irmão mais novo, os seus sonhos de estudante, o assalto ao banco,

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a faculdade, o seu primeiro beijo e o seu segundo, a dança no salão, as noites com ele...

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Finalmente chegou à beira do seu assassino. Este só se apercebeu da sua presença quando ela o agarrou nas costas.

E finalmente disse as palavras que reservara para aquele momento, o derradeiro da sua vida, as palavras que fizeram negar qualquer lógica que lhe restava. As palavras que, embora destinadas a provocar conforto, compreensão, soaram ao assassino uma maldição que lhe atormentariam no resto da sua vida e acabariam por ter impacto no destino do mundo:

“Amo-te”

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