Luís acordou sobressaltado, e pousou a mão sobre o rosto. Estava húmido, do suor e das lágrimas. Há uma semana que tentava bloquear aquela recordação, há uma semana que tentava incutir nele próprio as palavras que a Ordem lhe ensinou para “estas situações”. “A Ordem salvou-me”, “Estou em permanente dívida”, “Fiz o que fiz pela Ordem”, “Não me arrependo pelo que fiz, estou grato”. As palavras ajudaram-no sempre, mas agora não lhe tinham qualquer sentido.
Levantou-se a custo da cama, com a cabeça a latejar, e a ver tudo às voltas. Durante aquela semana não saíra à rua, andara sempre com a mesma T-Shirt e sobrevivia com conservas e álcool. “Que rica figura”, pensou enquanto se via ao espelho. As enormes olheiras foram o que lhe provocaram mais medo nesta imagem reflectida. Ela tinha-lhe dito que se apaixonou por causa dos seus olhos, um castanho intenso e atraente, que absorvia todos os detalhes. Agora que ela desapareceu, esse seu olhar também iria desaparecer.
“E a culpa foi toda minha...”, disse, sem que lhe tivesse saído qualquer som da garganta. Decidiu-se finalmente a superar o que tinha acontecido: era apenas mais uma miserável etapa na sua miserável vida. Estava condenado e tinha de aceitar isso. Desde muito cedo aprendeu a selar o seu passado e os seus sentimentos.
domingo, 4 de novembro de 2007
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