domingo, 4 de novembro de 2007

Capítulo I - 2

Ele saiu de casa à pressa, ainda a apertar os botões do casaco. Tinha acabado de telefonar para o emprego, a dizer que se sentia melhor, depois de uma semana sem ir trabalhar. Explicou que tinha apanhado uma forte gripe e que aproveitou para meteu uns dias de férias (deste modo o seu patrão não desconfiaria, pois não lhe iria pagar uma semana do ordenado). Não se importava com isso, a Ordem dava-lhe todo o dinheiro que ele precisava, o trabalho era um mero pretexto para não desconfiarem dele. Ter muitos e variados “amigos” era algo importante para alguém que quer passar despercebido. O seu trabalho resumia-se em verificar as finanças da empresa em que trabalhava, a Mateus Trends – a “Maior Empresa De Ideias De Portugal”, como era auto-apelidada, e, apesar de não ser o “Maior Verificador De Finanças Da Empresa”, fazia tudo o que lhe pediam de forma certa e nos prazos estipulados (“estuporados”, como os seus “amigos” das finanças lhes chamavam). Deste modo não era promovido nem despedido, outra técnica que aprendera para não atrair atenções. Aprendera tudo isso na Ordem.

Á saída da paragem do Metro, parou na tabacaria do costume, a “Grinalda”:

“Ora biba, Sôr Rodrigues,”, disse alegremente o dono da tabacaria, com o seu tom inconfundível do Norte, “é o Notícias?”.
“É, senhor Gomes,”, disse enquanto procurava uma moeda nos bolsos, “e um café.”

O dono da tabacaria era algo cómico, um senhor com os seus cinquenta anos, possuidor de um bigode farfalhudo e de um odor característico a vinho tinto e presunto. Sempre que Luís pensava em bêbados ou em tascas, a imagem do senhor Gomes aparecia na sua mente, era inevitável. Foi folheando o jornal até chegar à parte dos crimes. Num pequeno quadrado, no canto inferior esquerdo, estava lá o que procurava: “Mulher de 25 anos continua desaparecida. A Polícia suspeita de homicídio”.

“Até que enfim que suspeitam”, pensou para si mesmo. Sabia que a polícia lhe iria bater à porta, talvez pela dica de um vizinho, que os apanhou a namoriscar. Ele estava totalmente seguro do que havia de dizer, seria apenas um namorisco que se tinha ultrapassado há muito. “Há precisamente uma semana...”, pensou, enquanto pedia ao Senhor Gomes um Whisky.

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