domingo, 4 de novembro de 2007

Capítulo I - 3

Faltavam quinze minutos para as nove quando entrou no grande edifício da Mateus Trends. O segurança que estava à entrada nem lhe pareceu dar importância, apenas um “Bom dia” e uma verificação do seu cartão da empresa. Subiu o elevador até ao 4º andar, o “Andar da Papelada”. Virou à direita no corredor e entrou na sala da Contabilidade, onde se encontrava o seu escritório. Reparou que ainda não tinham chegado metade do pessoal. O chefe do departamento já lá estava, era sempre o primeiro a chegar, como os seus “amigos” comentavam, sempre com um tom de desdém na voz. Era uma daquelas pessoas sem “vida própria”, um dos requisitos mínimos para ser chefe-de-alguma-coisa naquela empresa. A ideia de ser promovido veio-lhe à cabeça, em tom de brincadeira. Ele sabia que não tinha algo a que pudesse chamar de vida própria. “Desapareceu há uma semana atrás”, pensou.

O chefe dele, o Américo (ele não gostava que lhe tratassem por chefe ou por senhor, para “tentar aproximar-se do grupo de trabalho”), não deixou que ele passasse despercebido:

“Ó Rodrigues, vem cá, por favor.”. Ele aproximou-se da sua secretária. ”Tem de recuperar o tempo perdido, já lá vão seis... não, sete dias. Tem que compensar rápido, que vem aí o fim do mês. A sua sorte é ter aqui o Freitas que não se importou de trabalhar umas horas extras para tentar actualizar as receitas.”

O Freitas era um jovem contabilista da empresa. Os óculos e o sorriso sempre estampado na cara eram a sua imagem de marca e desde que entrou na empresa, tentou sempre ser notado. “Ele também daria um bom chefe”, pensou. “Não tem vida própria.”.

Cumprimentou-o e disse-lhe um obrigado. Ele nem notou, acenou apenas, sem tirar os olhos do monitor do computador.

Mais alguns seus “amigos” notaram a sua chegada a à hora de almoço cumprimentaram-no e perguntaram-no se já estava melhor. Ele respondeu que sim, estava melhor. Mas a dor que tinha no coração nunca iria desaparecer, isso era certo.

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